Ataques à aparência de cientista que avançou contra o câncer viralizam nas redes
Enquanto lidera pesquisa que eliminou tumores pancreáticos em animais e busca recursos para testes clínicos, Mariano Barbacid vira alvo de comentários ofensivos
Viralizou nas redes sociais o debate sobre comentários negativos direcionados à aparência do cientista espanhol Mariano Barbacid. A frase “É tão feio que assustou o câncer” passou a circular em publicações que, em vez de discutir o conteúdo científico do estudo, ironizavam uma marca de nascença no rosto do pesquisador. Além das ofensas pessoais, parte das críticas também colocou em dúvida sua qualidade científica.
Barbacid é chefe do Grupo de Oncologia Experimental do Centro Nacional de Investigaciones Oncológicas e ganhou notoriedade ao liderar um estudo que eliminou tumores de câncer de pâncreas em modelos animais. A pesquisa foi publicada na Proceedings of the National Academy of Sciences e descreve uma estratégia de bloquear simultaneamente múltiplos pontos de uma mesma rota tumoral.
A chamada terapia tripla combina daraxonrasib, um inibidor de KRAS ainda em investigação clínica, afatinib, já aprovado para determinados tumores, e SD36, um degradador de STAT3. Nos experimentos relatados, houve regressão tumoral completa em modelos específicos, sem evidência de resistência por mais de 200 dias após o tratamento.
Apesar da relevância científica, o próprio Centro Nacional de Investigaciones Oncológicas ressalta que a combinação ainda não está pronta para ensaios clínicos em humanos. A transição exigirá otimização de formulação, definição de doses, avaliação de segurança e critérios precisos de seleção de pacientes. Especialistas também lembram que resultados em camundongos não reproduzem automaticamente a complexidade biológica do câncer pancreático em humanos, especialmente em casos avançados e metastáticos.
O debate nas redes extrapolou o campo científico e passou a envolver financiamento. Reportagens mencionam uma meta inicial de 3,5 milhões de euros para etapas específicas do projeto, mas análises indicam que o custo para chegar a testes clínicos pode alcançar cerca de 30 milhões de euros, considerando desenvolvimento farmacológico, estudos toxicológicos e estrutura regulatória.
Em meio às críticas, houve manifestação pública de apoio. O ator espanhol Antonio Banderas anunciou que sua instituição, a Fundación Lágrimas y Favores, irá contribuir com o projeto. Em publicação, Banderas afirmou que, em tempos de violência, confusão e desencanto, a ciência representa um ponto de lucidez e citou Barbacid e sua equipe como exemplo de trabalho contínuo e rigoroso. O valor do aporte não foi divulgado.
O interesse em torno do tema se justifica pelo impacto global da doença. Em 2022, foram estimados 510.992 novos casos de câncer de pâncreas no mundo e 467.409 mortes. Nos Estados Unidos, a taxa de sobrevida relativa em cinco anos é de aproximadamente 13 por cento, variando conforme o estágio no diagnóstico.
Nos bastidores da comunidade científica, o artigo é reconhecido como um resultado robusto em ambiente pré-clínico, mas ainda distante de qualquer promessa de cura. A própria instituição espanhola descreve o achado como um caminho para futuras terapias combinadas, sem previsão de aplicação imediata.
Enquanto isso, o episódio reacende um debate mais amplo sobre a superficialidade das redes sociais diante de avanços científicos complexos. Para muitos pesquisadores, a atenção deveria estar centrada na consistência metodológica, na reprodutibilidade dos dados e no potencial translacional do estudo, e não em características físicas irrelevantes para a ciência.