Pesquisadores da Universidade de Liverpool estimam que o lenacapavir — antirretroviral de longa duração injetável a cada seis meses — poderia ser produzido e distribuído a apenas US$ 25 por pessoa ao ano (cerca de R$ 140). A cifra leva em conta insumos, síntese otimizada e margem de lucro modesta, segundo pré‑print submetido à The Lancet. Se fabricado em escala de 5 a 10 milhões de tratamentos ao ano, esse custo pode até cair ainda mais.
Ainda assim, a Gilead Sciences comercializa o mesmo medicamento nos EUA por impressionantes US$ 28 300 ao ano (em torno de R$ 156 000), valor 1.120 vezes superior ao apontado pelo estudo britânico. No mercado americano, o produto é conhecido como Yeztugo e obteve aprovação da FDA em junho deste ano para prevenção ao HIV. No Brasil, porém, o lenacapavir ainda não conta com registro junto à Anvisa.
“Estamos num momento em que poderíamos vislumbrar a eliminação das infecções por HIV, mas isso só será viável se o medicamento for acessível e amplamente disponível”, afirmou Andrew Hill, um dos autores do estudo, em nota oficial. No mesmo dia em que a OMS recomendou o lenacapavir como “ação política histórica” na luta global contra o vírus, Tedros Adhanom Ghebreyesus destacou que, enquanto uma vacina segue distante, esta injeção semestral oferece proteção de quase 100% para populações em risco.
Hoje, o Brasil já adota a PrEP oral pelo SUS — comprimidos diários que reduzem a chance de infecção praticamente a zero, mas enfrentam barreiras de adesão. Em comparação, lenacapavir e outros antirretrovirais injetáveis (como o cabotegravir, de aplicação bimestral) prometem simplificar a rotina. Ainda assim, preços astronômicos e acordos de patentes que excluem o Brasil e diversos países da América Latina, Ásia e Europa mantêm o medicamento fora do alcance de quem mais precisa.
Para Andrew Grulich, do Instituto Kirby, “US$ 28 300 por ano é um valor absolutamente insano” — um entrave que, segundo ele, impede qualquer sistema de saúde de implementar a nova estratégia. A campanha “Make Medicines Affordable” celebra os acordos da Gilead com seis fabricantes genéricos, mas lamenta que nações com altas taxas de infecção tenham ficado de fora. “Cientificamente, o lenacapavir é o mais próximo que temos de uma vacina contra o HIV. Mas sem acesso, torna‑se uma tragédia em saúde pública, e não um triunfo.”