O Ministério da Saúde anunciou, em março de 2026, uma parceria estratégica para viabilizar a produção nacional do pembrolizumabe, um dos medicamentos mais avançados no tratamento de câncer. O acordo envolve o próprio ministério, o Instituto Butantan e a farmacêutica MSD, responsável pelo desenvolvimento do fármaco comercializado como Keytruda. A iniciativa prevê a transferência de tecnologia ao longo de até dez anos, com o objetivo de permitir a fabricação do imunoterápico no Brasil e ampliar o acesso pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Atualmente, o uso do pembrolizumabe na rede pública é restrito, atendendo principalmente pacientes com melanoma avançado. Com a nova parceria, a expectativa do governo é expandir significativamente as indicações do medicamento no SUS, contemplando diversos outros tipos de câncer. Segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, a prioridade é garantir que a inovação chegue à população e contribua para reduzir desigualdades no acesso ao tratamento.
O projeto já avançou para a fase de elaboração do contrato de transferência tecnológica, etapa que antecede a aquisição em larga escala pelo SUS. Durante o período da Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP), o Instituto Butantan deverá consolidar a capacidade de produção nacional do medicamento, em uma iniciativa considerada inédita no país para esse tipo de terapia.
De acordo com o Butantan, o pembrolizumabe possui diversas indicações aprovadas por órgãos reguladores, incluindo câncer de pulmão, mama triplo-negativo, esôfago e colo do útero, além do melanoma. A expectativa é que o SUS passe a oferecer o tratamento para cerca de 18 tipos de câncer, ampliando significativamente o alcance da imunoterapia no sistema público. Parte dessas indicações ainda está em análise pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).
O medicamento atua como um anticorpo monoclonal que bloqueia a via PD-1, mecanismo utilizado por células tumorais para escapar da ação do sistema imunológico. Ao inibir esse “freio”, o fármaco permite que as células de defesa reconheçam e combatam o câncer de forma mais eficaz. Essa abordagem tem revolucionado a oncologia nos últimos anos, com resultados mais duradouros em comparação a tratamentos convencionais.
Estudos clínicos demonstram ganhos expressivos de sobrevida com o uso do pembrolizumabe. Em casos de câncer de pulmão metastático, por exemplo, a combinação com quimioterapia reduziu significativamente o risco de morte e dobrou a sobrevida mediana dos pacientes. Já no melanoma avançado, cerca de 40% dos pacientes tratados permanecem vivos após cinco anos, índice superior ao observado com terapias anteriores.
Apesar dos avanços, o alto custo ainda é um obstáculo relevante. No mercado privado, cada frasco do medicamento pode custar entre R$ 19 mil e R$ 27 mil, o que tem levado muitos pacientes a recorrerem à Justiça para garantir o acesso. Com a produção nacional, o governo espera reduzir os preços, diminuir a dependência de importações e ampliar a oferta no SUS.
A iniciativa também representa um passo importante para a autonomia do setor farmacêutico brasileiro. Além de facilitar o acesso à imunoterapia, a produção local pode contribuir para a redução da judicialização na saúde, ao permitir que tratamentos inovadores estejam disponíveis de forma mais ampla e equitativa para a população.