Governo dos EUA reduz vacinas infantis recomendadas e gera reação de especialistas
Revisão inédita corta seis imunizantes do calendário universal e acende alerta sobre risco de retrocessos em saúde pública
O governo dos Estados Unidos anunciou nesta segunda-feira uma mudança sem precedentes no calendário de vacinação infantil: seis vacinas deixaram de ser recomendadas de forma rotineira para todas as crianças. A decisão, tomada pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) sob comando de Robert Kennedy Jr., integra uma revisão mais ampla da política nacional de imunização impulsionada pelo presidente Donald Trump. Saíram da lista os imunizantes contra gripe, hepatites A e B, meningococo, vírus sincicial respiratório e rotavírus, que passam a ser indicados apenas para crianças de alto risco ou mediante avaliação clínica individual. A vacina contra a Covid-19 já havia sido retirada meses antes.
Segundo o governo, a nova diretriz busca “alinhamento internacional”. O HHS citou países como a Dinamarca, que possuem calendários com menos vacinas obrigatórias, como referência para a mudança. Em suas redes sociais, Trump afirmou que o calendário norte-americano estava “inflado” e reiterou que os pais continuam livres para vacinar os filhos conforme desejarem, com cobertura mantida pelos planos de saúde. Com a revisão, o número de imunizantes recomendados universalmente na infância cai de 17 para 11.
A decisão, contudo, encontrou forte resistência na comunidade científica. Infectologistas e pediatras alertam que comparações com calendários europeus desconsideram diferenças estruturais profundas entre países, incluindo desigualdades de acesso à saúde, variabilidade populacional e circulação de doenças. Especialistas lembram que o modelo norte-americano foi construído ao longo de décadas com base em ampla evidência científica e é considerado um dos mais eficazes do mundo na prevenção de doenças graves. Pesquisadores da Universidade de Minnesota reforçaram que o uso da Dinamarca como parâmetro ignora características epidemiológicas completamente distintas.
A repercussão negativa também alcançou o Congresso. O senador republicano Bill Cassidy, médico, classificou a revisão como pouco transparente e cientificamente frágil, afirmando que ela pode aprofundar a hesitação vacinal em um país que já registra queda preocupante nas coberturas infantis desde a pandemia. Entidades médicas temem que a medida favoreça o retorno de doenças como sarampo e meningite, especialmente em regiões mais vulneráveis. Embora os estados continuem responsáveis por definir exigências para matrícula escolar, diretrizes federais historicamente influenciam decisões locais. Diante do novo cenário, alguns governos estaduais já discutem manter calendários mais amplos de imunização por conta própria, em um esforço para evitar retrocessos em saúde pública.