Farmacêuticos relatam a percepção do aumento de receitas ilegíveis nas farmácias

Profissionais relatam crescimento da dificuldade de leitura de prescrições e alertam para riscos ao paciente e para a responsabilidade farmacêutica

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O aumento de receitas ilegíveis tem chamado a atenção de farmacêuticos em todo o Brasil. A questão vem se tornando cada vez mais recorrente nas farmácias brasileiras. Em 2019, uma análise do próprio conselho apontou que grande parte das receitas médicas continha algum grau de ilegibilidade. Dados mais recentes reforçam a gravidade: notificações de eventos adversos relacionados a prescrições ilegíveis aumentaram, e parte desses casos resultou em complicações sérias. No Acre, farmacêuticos ouvidos para esta reportagem dizem que têm percebido “cada vez mais” receituários difíceis de ler.

Em Rio Branco (AC), o farmacêutico João da Silva, 32 anos, comenta que o problema tem piorado nos últimos meses. “Recebo tantas receitas com garranchos que fica quase impossível saber qual medicamento o prescritor indicou”, reclama ele. Segundo João, a situação traz transtornos para pacientes e profissionais: “Se eu não entendo direito, preciso parar e ligar para o consultório, ou até mesmo pedir para a pessoa voltar depois. É um atraso no atendimento e causa frustração”. Ele relata ainda que houve casos em que clientes se mostraram impacientes ao ter o medicamento retido no balcão. “Já enfrentei cliente bravo, dizendo que ‘o remédio não pode ficar ali esquecido’”, conta. João reforça que, diante de tal impasse, a farmácia procura esclarecer o erro com o médico responsável. “Nunca adianto nada sem ter certeza; saúde não pode virar jogo de adivinhação”, diz ele, frisando que essa conduta está respaldada pela legislação vigente.

Em Cuiabá (MT), outra farmacêutica faz observações semelhantes. Patrícia Oliveira, 28 anos, que atende no interior de Mato Grosso, diz notar aumento nas receitas mal escritas, especialmente após plantões longos. “Aqui no interior, nem sempre conseguimos contato rápido com o prescritor para esclarecer. Quando surge uma palavra indecifrável, é uma dor de cabeça a mais na rotina”, relata Patrícia. Ela ressalta que a experiência profissional mostra um cenário de aumento dessas ocorrências. “São poucas cidades que já adotaram sistema eletrônico padronizado, na maioria, ainda se confia na letra do doutor. E o resultado é o que vemos: receita dobrada, medicamento errado, tratamento atrasado”, afirma. Patrícia destaca ainda que a falta de legibilidade faz com que a equipe da farmácia perca tempo valioso confirmando informações, o que atrasa todo o atendimento. “O paciente sai confuso, às vezes nem sabe se leva um remédio ou volta ao médico. E o farmacêutico fica preocupado em não errar no lugar do colega”, completa.

O Conselho Federal de Farmácia (CFF) chama a atenção para os riscos dessa prática. Uma prescrição ilegível pode ocasionar erros na dispensação, entregando ao paciente um medicamento errado ou na dosagem incorreta, com consequências graves. Ao ingerir um medicamento por engano, o paciente pode sofrer efeitos colaterais indesejados, agravamento da doença ou até intoxicação medicamentosa. Além disso, a dificuldade de interpretação gera atrasos no início do tratamento, especialmente em casos urgentes ou de doenças crônicas. Acidentes de medicamentos decorrentes de prescrição ilegível têm sido documentados, incluindo casos de hospitalização e até óbito.

O cenário traz riscos não só para os pacientes, mas também para os próprios farmacêuticos. Pela legislação federal, toda receita deve ter letra legível. A norma autoriza o farmacêutico a avaliar a legibilidade do receituário antes de dispensá-lo, podendo barrar a entrega caso entenda que há risco de erro na interpretação. Na prática, isso significa que o profissional não é obrigado a dispensar medicamentos sem clareza total da prescrição, o que o desobriga de “adivinhar” o que o prescritor escreveu. Porém, se ainda assim o farmacêutico optar por seguir com a dispensação sem ter certeza, ele pode ser responsabilizado civil e criminalmente por um possível equívoco. O CFF enfatiza que o farmacêutico deve agir com cautela: antes de liberar qualquer medicamento de receita duvidosa, é recomendável notificar o prescritor ou mesmo indicar que o paciente retorne ao médico, evitando procedimentos inseguros. Em algumas situações, casos de conflito já foram relatados: pacientes reagiram com agressividade ao serem impedidos de levar o medicamento, mesmo após explicação, o que ilustra a pressão sobre os profissionais na linha de frente desse problema.

Diante do aumento das denúncias, o CFF tem intensificado campanhas de conscientização. Em 2023, foi lançada uma ação nacional para alertar médicos, farmacêuticos e pacientes sobre a importância da escrita legível. Paralelamente, decisões judiciais em alguns estados têm buscado obrigar o uso de receitas digitais nas redes públicas de saúde, na tentativa de reduzir as receitas ilegíveis registradas. Por ora, em grande parte do país, a solução imediata tem sido reforçar a comunicação entre prescritor e dispensador. É preciso uma mobilização conjunta. A clemência com letras ilegíveis deve ser substituída por um padrão mínimo de clareza. Uma assinatura legível não deve custar vidas nem atrapalhar o tratamento de ninguém. Dessa forma, pacientes, médicos e farmacêuticos devem atuar juntos para melhorar a segurança dos tratamentos e evitar que um simples descuido na escrita comprometa a saúde de todos.